Viajando na morfinese

A história de minha morte e ressurreição

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Alucinação — tecmundo.com.br-autor 128-nilton-kleina

Apresentação

Este é um relato real de alguém que aparentemente foi “para o outro lado” e conseguiu voltar.
Não é exatamente o que geralmente se diz ser a experiência de quase morte, encontrada em vários artigos científicos e seculares.
Eu sou um “duvidista” [1], que difere de um “agnóstico”, alguém que não acredita em nada, até duvida de suas certezas; e procura, sempre procura, alguma explicação.
Essa experiência de forma alguma me ajudou a acreditar ou negar definitivamente a existência de um deus ou divindade, na vida após a morte, de algo antes do “big bang” que a ciência ainda está lutando para definir e vai criando teorias a seu respeito e suas conseqüências na criação e continuidade deste possível universo em que aparentemente vivemos.
A ciência é escrava da epistemologia [2], ou melhor, levou à criação da epistemologia da ciência [3].
Para que uma teoria seja válida, ela precisa ser comprovada por diferentes experiências. Foi possível provar que o que Einstein teorizou sobre a luz sendo desviada pela gravidade [4] é verdadeiro e produziu ferramentas como a lente gravitacional, que são de grande importância para tentar provar outras teorias, como o valor da velocidade da expansão do universo [5].
E como fazer vários experimentos que concordem na demonstração de coisas imaginadas, cujas formas e características nem são conhecidas, para saber se existem ou não?
Bem, quase todo mundo que tem religião dirá que existem muitos; diretos e infalíveis para judeus, cristãos, mussumanos, umbandistas; caminho para a perfeição para espíritas, budistas, taoistas; epistemólogos dirão de que não há como validar dúvidas, agnósticos têm certezas.
Deixando essas especulações de lado, minha história pode interessar a espiritualistas, budistas, talvez a taoístas; Possivelmente para psicólogos e psicanalistas, pelo conteúdo, ou para provar que sou insano irrecuperável.
Vamos lá e decidida.
[1] Aquele que sempre duvida, até suas certezas.
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/epistemology
[3] Arquivo: /// c: /users/blogf/onedrive/área%20de%20Trabalho/ram-72.pdf
[4] https://revistapesQuisa.fapesp.br/2019/04/12/quando-a-luz-se-curvou/
[5] Arquivo: /// c:/users/blogf/onedrive/área%20de%20Trabalho/1679–6774–1-PB%20 (1) .pdf

Nota inicial

É incrível que eu possa ter vivido todas estas experiências em tão curto espaço de tempo.

O texto não descreve tudo que se passou em minha cabeça e de que eu tenho lembrança bem clara, nem se alonga por detalhes das alucinações e sonhos. São imagens e, como cada uma valeria por mil palavras, eu passaria o resto dos 74 anos de vida que — segundo o IBGE — tem como expectativa de vida quem nasceu no Brasil e em 2011…

Para quem não tenha interesse em ler o longo depoimento deixo um Resumo dos acontecimentos logo em seguida.

Ninguém pode passar por coisa semelhante e voltar a ser o “normal” da vida passada. Em minha mensagem de Festas de 2011 dei algumas dicas do que acho que será minha normalidade de agora em diante.

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Resumo

Fui produtor regular de cálculos renais durante muitas décadas. De tanto terem que deixar passar as pedras, pedronas e pedriscos os canos acabaram se alargando ou se acostumando. A primeira crise requereu internação e aplicação endovenosa de Dolantina; as seguintes com Buscopan injetável, o que me forçava a levar seringas, ampolas, e receitas médicas em inglês para aguentar minhas muitas viagens mundo afora. Gradativamente as dores passaram a ser mais leves e, há uns dez anos, só uns comprimidos de Buscopan resolviam sem mais problemas.

Em 19 de setembro de 2011 ainda morávamos em apartamento no Portal do Morumbi que a Julieta acabara de vender, pois não tínhamos mais condições de arcar com os pagamentos de condomínio e IPTU. Pela manhã comecei a sentir os sintomas que sempre precediam as crises: desconforto geral e indefinido, leve enjoo, às vezes pernas doloridas. Nem comentei com a Julieta.

No dia seguinte (20) começaram dores fortes e passei a tomar um comprimido de Buscopan de 4 em 4 horas. As dores só aumentavam; Julieta sugeriu que eu devia ir a um Posto de Saúde. Mas eu já conhecia bem o SUS mais próximo, até o qual eu poderia, com algum esforço, ir a pé: sem médicos ou equipamentos mínimos para diagnóstico. A AMA mais próxima (que eu também já conhecia) era a de Vila Sônia; para chegar lá eram duas conduções e subir uma ladeira de uns 300 ou 400 metros.

Julieta estava afogada de trabalho e tarefas para dar um trato e mobiliar os apartamentos onde teríamos de ir morar (um dela, e um meu, lado a lado); quase não parava em casa e à noite apagava de estafa.

Na manhã de 21 eu já me arrastava, curvado e arfante, desvairado de dor; Julieta já havia saído.

Aí aconteceu a primeira das coincidências milagrosas que permitiram que agora eu esteja escrevendo isto.

A Neide, nossa amiga também moradora no Portal, ligou para seu escritório, mas errou o número e ligou para nosso telefone!

Eu atendi, ela perguntou o que estava acontecendo comigo; nem sei o que respondi.

- “Desça já para a garagem que eu vou pegar você!”

Apesar de seu carro ser ótimo, desses novos, macios de suspensão e estofamento, a cada buraco maior — que abundam por nossa pobre cidade — eu abafava um gemido.

Na AMA de Vila Sônia ela me enfiou para dentro da área de atendimento, explicando para a atendente o que se passava com o velhinho, e foi para a recepção para fazer o registro.

A moça foi muito gentil: por favor, sente-se aqui que o senhor já vai ser atendido.

Dali a pouco ela me disse para ir para a sala de espera interna e repetiu que eu seria o primeiro a ser atendido. A Neide logo entrou para ficar esperando ali comigo. Sentado ou em pé, curvado, era o mesmo e insuportável sofrimento.

Passa o tempo e a Neide foi, por três vezes, saber o que acontecia: “entrou uma emergência” — como se meu caso não o fosse — ele é o primeiro agora, na sala x”.

Na quarta vez, a Neide soube que desta vez a sala “x” era a 22. Me pegou pelo braço, abriu a porta da tal sala e a médica velhota (não sei se era médica mesmo), que atendia uma mulher aparentemente muito bem de saúde, quis estrilar, mas a Neide se impôs. Sai a paciente e a velhota perguntou meu nome e foi procurar minha ficha: estava embaixo de muitas outras!

É assim que ficou a minha gente: cada um interessado só em si e em tirar vantagens; subornando e sendo subornado, insensível e se lixando para aqueles que, ingênuos, não lhes dão “presentinhos”.

A velhota enfim pediu que eu fosse fazer uma radiografia do abdome. Fui: a dor para subir na mesa e para deitar-me na tabua dura…

Volto com o técnico e a chapa. Daí ela deve ter visto que a coisa era muito séria e não queria um morto em sua ficha: “É preciso levá-lo urgente para o Hospital Universitário”. Só fiquei sabendo o que me acontecera mais tarde: um divertículo estourara e abrira um buraco de 2,5 cm em meu cólon e inundara meu abdome de fezes.

Neide, que já tinha dado uma olhada no pátio da AMA: “Há uma ambulância aqui, ele tem de ir de ambulância!”.

Esta foi a primeira das três ambulâncias de nossa PMSP que tive de usar até o final de minha “via crucis”. Todas sem amortecedores, sem equipamento adequado para que o paciente e acompanhante entrem, sem equipamento para subir ou baixar a maca que não a força bruta! E à brutalidade para com o paciente, por mais que o enfermeiro e motorista tentem minorar a coisa.

Nesta viagem começou meu teste de resistência a dores que, creio, teriam feito desmaiar ou enlouquecer a maioria de pessoas.

Sim, houve coincidências altamente positivas, mas também uma negativa: mesmo eu tendo chegado de ambulância e encaminhado pela AMA tive de ficar sentado na cadeira de rodas esperando ser chamado pela senha que a Neide tirou para mim, apesar de ter informado o porquê de eu estar ali e com a radiografia da AMA!

Sim, havia muita gente esperando, mas para mim a grande infelicidade foi ter chegado no horário do plantão de uma médica que acredito sem experiência para lidar com a situação (e acho que desalmada). Depois de minha alta eu escrevi longa reclamação para a Ouvidoria do HU que, até agora, só mereceu uma nota dizendo que a receberam e que iriam responder.

A moça pediu que um estagiário me examinasse. Tive de deitar-me na cama. Quando o garoto tocou em meu ventre recebeu um urro como resposta. Todos que me conhecem sabem de minha resistência à dor; mas mesmo que o jovem disso não soubesse imagino que isto bastasse para que eu fosse, imediatamente, internado.

Neste meio tempo a Thais, minha filha, já chegara e substituiu a Neide que foi buscar a Julieta.

Não sei se a doutora era mesmo incompetente e insensível ou se não dava a mínima para a opinião do estagiário: começou a pedir mais exames.

De sangue: este era relativamente perto de onde eu estava e a Thais empurrou a cadeira até lá. Feito o exame minha filha foi falar com o estagiário, bonzinho e simpático, e insistiu que eu não poderia continuar ali. — “Vou falar com a Doutora”.

Resultado: outra radiografia de abdome!

Siga a linha azul. E lá fomos: Thais me empurrando na cadeira de rodas sem nem encosto para a cabeça, para mais uma sessão de tortura.

Agora um ultrassom de abdome! Siga a linha azul. Imaginem o que senti com o técnico esfregando aquela coisa em minha barriga.

Um eletrocardiograma! Acreditem! Siga a linha azul.

Se a doutora tivesse visto os primeiros resultados, ou ao menos a radiografia feita na AMA, certamente teria me internado com urgência.

Neste meio tempo aconteceu a segunda coincidência salvadora: a Delza ligara para o telefone de meu “home-office”; não havendo resposta ligara para meu celular; também não teve resposta. Ligou então para a Julieta que, por coincidência, estava passando no apartamento e de saída, correndo, para o HU. Julie deu resposta lacônica para Delza, informando onde e como eu estava, e se mandou com a Neide para lá.

A Delza estava com a Claudia, querida amiga nossa, ao seu lado e pediu para ela que tentasse encontrar sua irmã Monica, Chefe da Farmácia do HU, altamente respeitada por todos os quadros médicos, cirúrgicos e clínicos, do hospital.

Por coincidência, a Mônica estava passando por seu escritório (em geral não atende o celular) já de saída para um compromisso. Cancelou tudo e foi me procurar lá no térreo.

Hoje minha impressão é que a “Doutora”, quando se deu conta da gravidade de meu caso, foi me empurrando com a barriga para o próximo chefe do plantão.

Numa certa altura minha Anja Monica já chegara e me transferiu para uma maca. Ela já sabia quem seria o novo chefe de plantão e, imagino, tenha conversado com ele.

Nestes momentos, por mais força que eu fizesse para me manter acordado e vigilante, eu apagava por alguns instantes, mas voltava à vigília.

Seja lá o que tenha sido, eu, de minha maca que estava estacionada num patamar mais elevado, vi passar, da esquerda para a direita, um senhor alto, de cabelos grisalhos, que gritou: “Abdome total! Cirurgia imediata!”. Mais tarde conversei sobre isto com ele que me disse não ter sido bem assim, mas parecido…

Neste momento pude finalmente apagar.

Com todas as infelicidades e mais ainda por todas as coincidências salvadoras, entrei em cirurgia já em septicemia.

Eu tivera uma diverticulite em que um divertículo estourou, abriu um rombo de 2,5 cm em meu cólon, encheu meu abdome de fezes.

Soube que os médicos conversaram se era conveniente ou não “me abrir”. O Dr. Cassio nem pestanejou e foi em frente. Obrigado Dr. Cassio!

Estive em coma induzido por quase oito dias.

Pelo que me contaram minhas Anjas muitas, tive uma parada cardíaca no primeiro dia e outra no dia seguinte ou dois dias depois. Meus rins também custaram a funcionar, mas funcionaram (na longa história abaixo conto da desobediência da Julieta me dando mais água que o permitido e que aparentemente foi o que os fez funcionar).

Eu delirava e só falava maluquices.

Independentemente uma de outras, Thais de um lado, e Julieta e Neide de outro, foram conversar com o psiquiatra. “Ele vai voltar ao normal?”.

- “Em geral eles voltam” …

A recuperação foi muito lenta para mim, mas extraordinária, segundo todos os médicos, cirurgiões e clínicos, e pessoal de enfermagem.

Entre internação e alta, 28 dias de muita curtição nas incríveis viajadas que continuam vivas em minha memória.

O nascimento

Não vi escada iluminada,

túnel com luz brilhante ao fundo, nem uma luzinha que fosse.

A primeira coisa de que me lembro, eu saído do nada ou de escuridão completa, foi ter sido jogado num grande carro daqueles de coleta de lixo, por um auxiliar de limpeza, mulato escuro baixinho; todos, eles e elas, brancos, morenos ou negros, eram baixinhos no “meu” hospital.

Reapareci, sem saber como lá chegara, debaixo de uma pilha de tijolos vermelhos, dispostos em degraus, mais longa que larga: um túmulo.

Em desespero e ansiedade, ao tentar me mover ou sair ouvi a voz da mulher que era a sacerdotisa da seita que controlava todos, ou quase, os auxiliares de limpeza, outros funcionários, e pacientes do hospital:

- “Diga a palavra!”

- Jesus!… Nada.

- “Diga a palavra!”

- Maria, Mãe, Pai, São Cristóvão, Nada.

Desespero! A angústia me oprimia o peito, quase não conseguia mais respirar.

- “Para sair tem de dizer a palavra!”.

- Iemanjá, Oxóssi, Ogum, Exu, Nada!

Desespero crescente.

- “Força! Diga a palavra!”

- Iansã.

Puff! Saí do túmulo só para ver que estava trancado em um barracão que abrigava o túmulo. Barracão que, para mim, ficava bem junto ao hospital.

- “Diga a palavra!”.

- Novamente “Iansã” e, de repente, estava em minha cama na UTI, seguramente ainda em coma induzido.

Apago.

Primeiras sombras

Sombras da Julie, que eu sabia estar ao lado da cama, sombra que eu não via, mas que passava gaze molhada em meus lábios; que eu sugava, ávido, querendo pedir mais.

Creio que a “sombra-voz” da Neide dizia para a Julie parar, não dar mais, os médicos pediram…

Mas a Julie continuou várias vezes.

Parêntesis

A sombra invisível da Thelma me apalpava (ela é instrutora de Jin Shin Jutso) e: Força, Dé! Você é forte, vai sair desta!

Fecha parêntesis.

Thais (sombra que já quase via, ou pensava quase ver) acompanhou a tomografia ultramoderna: eu recostado (ou deitado?) em minha maca, o médico ou técnico (que eu “sabia” que era alemão) num patamar um pouco mais acima, no canto à direita, com uma maquineta que, apontada para mim e sem me tocar, ia fazendo a tomo de meu tórax e abdome. Incrível, né filha? E ela entrava na viajada: É sim pai…

As belezas do local

Inimagináveis as belezas e luzes dos iates e barcos estacionados ali ao lado de meu quarto! Maravilhosos cada um deles e mais ainda em seu conjunto.

Uma vez voltei a meu canto, vindo da passarela do píer, através de um deles, cintilando em brilhos e cores, de riqueza interior estonteante.

Vivi e revivi estas experiências por dois ou três dias (talvez mais, não sei). Tornaram-se inesquecíveis.

Não entendia se os barcos estavam na Raia Olímpica da Cidade Universitária, pois os via também ao lado do Instituto Oceanográfico e do IPEN, ou se em alguma ligação com o rio Pinheiros ou o Tamanduateí (!)…

No delírio, eu perguntei ao compadre Plínio, que sabe de tudo, mas ele não me respondia.

Sei que muita gente esteve por lá me visitando, mas só me lembro, nesta época, de alguns parentes mais próximos.

Investigando

Andei, rodei várias vezes os edifícios do hospital para localizar o tal barracão. Eu sabia que estava logo ali, mas não conseguia ver exatamente onde em relação ao hospital. Eu tinha de encontrá-lo para denunciar à Direção do HU onde estava e para que era usado!

Em outro momento percebi que o objeto, uma espécie de cartão de identificação, que a gente recebia ao dar entrada (parecendo um cabo de guarda-chuva destes pequenos, retráteis), ficava preso em nossas mãos e, de repente, entendi que um fio tênue, mas resistente, invisível, ligava meu “cartão de identificação” a algum ponto distante; puxando a mão sentia a força com que a ligação, elástica, cedia e voltava a tencionar; não me soltava. Eu estava preso à organização que me sequestrara!

Rodei várias vezes o fio, como uma corda de pular; consegui enroscá-lo numa ponta da calha da edificação que ficava à minha frente, um pouco abaixo da janela por onde eu a via. Puxei algumas vezes e não havia mais elasticidade: era uma cordinha dura. Dei um puxão forte, e o fio se rompeu. Livre!

Imediatamente surgiu um homem, saído da porta lateral do predinho, esbravejando, dizendo que eu iria pagar caro por isto.

Tive medo, mais angústia que medo.

Medo, quase pavor, eu tinha de todos os nanicos faxineiros!

A cada vez que passava um por perto, eu fazia, ostentosamente, o sinal da cruz, me persignava, e rezava pais-nossos, para me proteger e afugentar os demônios.

Algum tempo depois (ou não…)

As “salas”, separadas por cortinas que tinham furinhos, franjas e dobras de cima abaixo, estavam enfileiradas como uma composição de vagões; iam andando conforme o tempo, ou de acordo com a recuperação de cada ocupante, não sei bem. A minha era a de número 10, a última do “trem”.

Afortunadamente eu tinha meu computador!

As franjas da cortina à minha frente abriram uma série de mensagens, uma das quais de amigo português da Delza que, sei lá porque, enviara um alfabeto completo e todos os sinais de escrita para ela.

De pronto comecei a usar esta preciosa dádiva para receber e enviar mensagens: as letras ou símbolos estavam um em cada vertical das franjas-colunas, e eu podia selecionar cada deles, através de meu mouse (o medidor de oxigenação preso ao meu dedo…). Enorme trabalheira, mas funcionava perfeitamente.

No “vagão” à frente, o de número 9, recém-esvaziado, entrou um senhor que, sem mesmo vê-lo, eu tinha a quase certeza de já o conhecer, em particular por causa de sua esposa vaidosa e desagradável, ambos apresentados a mim, há muito tempo, pelo Edison. Pobre Edison: nem sabe que entrou nesta; quando ler vai dar boas gargalhadas.

Fui visitá-los, num país árabe, talvez no Líbano ou ilha (?) próxima. Seu nome era Sebastião, não me lembro bem, mas minhas filhas o sabem.

Em minha estada lá, vi que ele possuía enorme frota de barcos e gôndolas, enfeitadas com luzes multicoloridas (durante minha estadia era sempre noite por lá), com música e variadas e lautas comidas, bem à moda árabe. Desfrutei de alguns passeios (noturnos, por certo) oferecidos por ele.

Os canais (!) estavam congestionados pela multidão de embarcações de vários tipos, todas com iluminação feérica, assim como as casas e ruidosos restaurantes de dois ou três andares com terraços abertos, por onde passávamos. Tudo, embarcações e restaurantes, atulhados de turistas.

O marido (o senhor, meu companheiro do vagão 9) e seu filho mais velho trabalhavam diuturnamente para a “madame” dar festas nababescas e se mostrar na mídia; o nome do marido nunca era ao menos mencionado.

Conheci a enorme mansão em estilo greco-romano com um espaço de entrada (que eu via abaixo de mim) com colunas em semicírculo, todo em mármore beije claro, ladeando enorme porta, creio que em metal trabalhado.

Já estavam à beira da falência. Acreditei que por isso vieram para o Brasil.

Eu tinha respeito e consideração pelo recém-vizinho à minha frente.

Eis que, de repente, ouço a voz da “Sacerdotisa” que me falara lá no túmulo e barracão: “Oi senhor Sebastião, se precisar de alguma coisa pode contar conosco” ou coisa parecida.

Apavorado que a megera o pudesse envolver, e talvez também “sequestrá-lo” como fizera a mim, escrevi mensagem para ele, com cópia aberta para o “Centro” ou lá o que fosse: “Prezado amigo Sebastião, estou aqui atrás, no quarto 10, e gostaria de poder conversar com você. Assim que puder vou levar meu quarto ao lado do seu para nos falarmos melhor, Flavio”.

- “Será meu o prazer. Aguardo sua visita. SJMJ”.

- “Há muito tempo não via este símbolo de Salve Jesus Maria e José! Posso copiar e inserir em minhas mensagens?”.

- “Claro! Fico muito contente que também o use”.

Passei a usar a figurinha como “assinatura” de todas minhas novas mensagens, como forma de afugentar os “inimigos” e deles me proteger.

Rescaldos do corte do “fio invisível”

- “Imbecil ignorante! Seu nome foi rasgado do livro!”

- “Desafiou a Irmandade do bem! Condenado à Geena.”

E mais uma ou duas imprecações deste gênero em minha caixa de entrada, todas de mulheres, com seus nomes de que não me lembro.

Escrevi mensagem em resposta a todas dizendo que não poderia ser santa uma irmandade que não aceitasse diferenças e discussão de opiniões, que eu queria conversar, que eu era filho de Oxóssi e minha esposa (a Julieta) era filha de Iansã…

Uma “crente” disse para todas que me deixassem em paz, que eu não era do mal e, sim, um irmão a ser acolhido.

Imediatamente agradeci a ela, e fiquei livre de maldições.

Mas, depois disto…

O administrador e principal executivo da “Seita”, um homem, que eu nunca vi, mas que sabia ser alto, magro, na faixa dos 40 anos, branco, cabelos penteadinhos e “glostorizados”, sempre de terno e gravata, começou a me enviar mensagens de proselitismo, onde afirmava peremptoriamente, que somente os “Mórmons Universais da Mesopotâmia” (ou Igreja Universal dos Mórmons da Mesopotâmia?) eram os portadores de toda a verdade e sabedoria, provinda diretamente de Moisés… blá blá blablabá… e quem não se juntasse a eles…

Idiotamente respondi, triturando seus argumentos.

Mesmo em estado de delírio eu sabia que responder fora, mais que besteira, uma temeridade. Afinal tinha lembranças do que sofrera em vidas passadas com o assédio das duplas de rapazes em camisas brancas de mangas curtas, calças e gravatas (e paletó quando fazia muito frio) azul-escuro; dos “Testemunhas de Jeová”; e de alguns daqueles “evangélicos” chatos por viverem sem vida e querendo acabar com a nossa. Só me livrara deles quando aprendera a tratá-los como grosso e iconoclasta logo de cara.

Veio a réplica.

Entrei no Google e juntei pilhas de argumentos e demonstrações de que sua arenga era pulha…

Assim foi até que eu lhe disse que não mais responderia suas mensagens e que apagara seu endereço de meus contatos.

Entretanto e entrementes,

Fiquei particularmente grato a uma das enfermeiras, uma gracinha, que se chamava Raquel.

Perguntei a ela se sabia da força de seu nome, que fizera com que Jacó servisse a Labão, pai de Raquel, por sete anos só para que pudesse tê-la por esposa. Creio que tenha recitado os “Sete anos de pastor Jacó servia a Labão, pai de Raquel, serrana bela”. Ela de nada sabia.

Que doideira buscar a história de Jacó e Raquel!

Os sites, riquíssimos e maravilhosos, eram em Hebraico; eu tinha de salvar um por um e verter para o Português, e cada um deles se desdobrava em novos textos e mapas, de onde eu tinha que descobrir o ponto certo para continuar.

Para mim parece que passei dias até chegar ao final do quebra-cabeça.

Raquel, que me lembre, não respondeu minha mensagem com o lindo e trabalhoso anexo…

O hospital também oferecia jogos e passatempos

Vi o site em “meu PC” e resolvi entrar no jogo.

Muito interessante, abria novas salas assim que eu passava por uma, tendo o cuidado de não derrubar peças de louça ou cristal, nem conjuntos de cubos, cilindros e outras formas empilhadas; tudo em ambientes bem iluminados e formas multicoloridas.

Cheguei a uma etapa em que era preciso pagar para continuar. Pensei um bocado, sabendo que não tinha muitos recursos; acabei me decidindo por continuar e paguei com um Cartão de Crédito (que não tenho). Isto também me deu pontos adicionais no jogo.

Mais adiante novo pedido de pagamento; este com promessa de prêmios. Paguei de novo e ganhei uma prancha de surfe bodosíssima, que mandei entregar para o Pedro, meu filho (o bandido até agora não me agradeceu!).

Deste ponto em diante passei a ver e conversar com toda minha família e amigos, para mim todos vivos e bem presentes.

O primeiro que vi foi meu pai, na escada de entrada do hospital, reclamando e querendo saber onde poderia fumar! Ele deixara de fumar há mais de vinte anos antes de falecer…

Daí em diante, a cada nova “sala”, mais uma porção de encontros. Nesta, sob a parte coberta, minha mãe sentada ao lado de Da Marilda (mãe da Darilma) e da Julieta que tinha a Danielle (que morreu aos 21 anos), já bem grandinha, ao colo; no gramado descoberto Eduardo, Roberto (falecido em fevereiro de 2011), Celso e Pedro conversavam ou brincavam uma brincadeira que eu não entendia…

Muito para um dia só: fui dormir.

Dureza! Eu achava que não dormia.

As grades negras, com trabalhos um tanto toscos e algumas linhas de barras de ferro, através dos quais eu percebia que ainda era noite, subiam e desciam, e nada de dormir!

Ansiava pela madrugada e perguntava as horas para as enfermeiras; eram ainda 4 da madrugada! Eu esperava pelo café da manhã. Ainda que não gostasse e pouco comia, comia bocados, empurrados pela Delza, Thais ou Julieta, mas seria a manhã, o dia, a luz!

Comecei a pedir, pela Internet, e pessoalmente em semi-inconsciência, ao jovem médico clínico simpático e compreensivo que me desse alguma coisa para dormir quando a noite chegasse.

A Thelma disse ao médico — e acho que também a mim — que eu dormira, sim, e até roncara. Não acreditei ou me conformei. Ela devia ter-me visto dormindo de manhã, cochilando, exausto pela noite insone.

No segundo dia em que renovei o pedido o médico atendeu e, à noite, me deram sei-lá-quê: dormi como um anjo, mas fiquei zureta o dia inteiro…

Dali em diante consegui dormir melhor.

De madrugada os chatos e inconvenientes pássaros álacres (Bem-te-vis ou Sabiás?) começavam a me incomodar e a me despertar de realidades tão deliciosas para o pesadelo da rotina.

Passava o longo dia e finalmente eu voltava ao meu jogo

Avançava em mais novas e novas dimensões. Mais salas a continuar visitando, em cada delas mais gente querida, vó Francisca e tia Maria, todos meus tios e tias Musa, alegria e reencontros. E começavam os soluços.

Cheguei à conclusão de que meus soluços aconteciam por estar em dimensões fora da real e atual. Creio que falei sobre isto para a Thais e para a Thelma.

Outra trabalheira: voltar por todos os caminhos percorridos com meu “mouse” retraçando as trilhas, me extraviando e voltando ao caminho de volta. Tarefa longa e extenuante que levou de dois a três dias.

Já no quarto

Éramos quatro. De que eu me lembre, eu era o que estava ainda lelé da cuca; dos outros três, um moço, ao meu lado, tinha um sério problema na perna esquerda, resultado de acidente de motocicleta, O Cirurgião-Chefe (o mesmo médico que me levou para a cirurgia de urgência) passava por cada um de nós com vários quintanistas, Residentes do Hospital das Clínicas; uma das vezes, explicou tudo que importa a um futuro médico sobre mim, levantou o lençol e mostrou como estava minha cirurgia, minha bolsa de colostomia, me perguntou:

− Você se sente melhor?

Eu respondi que não, porque não conseguia comer as gororobas que me davam, queria comer avocados com sal, azeite e limão.

− Poxa, ele tem bom gosto! Isto aumentou minha fome: vamos já para o restaurante!

Nos horários de visitas parentes e amigos se chegavam, traziam frutas, revistas, algum presente; se homens, trocavam poucas palavras em tom baixo com “seu doente”, pouco demoravam; as mulheres, falavam em voz normal, tinham assunto, falavam bastante, não só com o “seu”, mas com todos nós, riam e nos faziam rir.

E eu quando sozinhos, conversava com os três.

Para mim um deles, o da frente à esquerda, era um militar ligado à estória do Sebastião, sua família e atuais dificuldades. Mas eu nada disse sobre isto. Ficou sendo o “Coronel” para mim.

À frente à direita, um senhor gordinho sempre alegre e falastrão, que tinha tido a perna direita amputada. Passou a ser o Comandante do grupo. Um comandante muito gozador.

À minha direita um jovem, creio que professor de esportes, com sério problema de infecção na grande prótese metálica na perna esquerda; simpático e que sempre me ajudava a alcançar um livro, as palavras cruzadas, o “papagaio”, ou a abrir as tampinhas da comida. Precisávamos de gente jovem e atlética; não me lembro do “codinome” dele que seria um “agente avançado”.

Conversei muito e brincamos os quatro (coitados dos outros três) e “criamos” uma brigada que iria acabar com as mentiras e difundir as verdades e promover a paz.

Para mim passou a ser outra viajada: cada um de nós foi para um canto do mundo, aliciaria mais um ou dois de nossa estirpe e aguardaríamos o sinal, que sairia do alto do Pão de Açúcar, para a ação espetacular.

Eu e uma moça estávamos deitados na praia de Itaipu, deserta, ensolarada, sob uns coqueiros. Da “Central”, uma câmera de TV com zoom de alta definição focalizava tudo; eu me via ao mesmo tempo na praia e me observando pela lente da câmera. Em Copacabana estava o “Agente avançado” com outro companheiro que deve ter aliciado. Não me lembro em que lugar do mundo estavam o Comandante e o “Coronel” (ambos tiveram alta…).

Dado o sinal, todas as regiões do mundo foram varridas por enormes ondas, como se fossem tsunamis, que não causavam estragos nas construções nem machucavam as gentes: apenas as lavavam. Da Central eu acompanhei a passagem da onda por Copacabana. Tudo registrado em VT; pensei em colocar a gravação no ar, mas não havia mais meu computador. Tudo perdido.

A Grande decepção

Me emprestaram o único “andador” lá existente; com dificuldade e assistido desci da cama e me posicionei. Esqueleto, quase que só ossos, tentei andar; arrastava meu corpo apoiado e consegui dar vários passos; no dia seguinte consegui sair do quarto e andar alguns metros.

No outro já andava segurando o andador no ar! Mas logo me cansava e para passear minhas filhas me empurravam na cadeira de rodas até um espaço onde havia uma TV, poltronas e cadeiras.

A Anja Mônica sempre que podia vinha me visitar, e eu aproveitava e pedia para ela contar para os outros que tinha recebido minhas mensagens de “E-Mail”. Bondosa e tímida, não sei o que balbuciava ou que sinais fazia que eu interpretava como confirmação.

Mas, um dia ela chegou e eu estava na tal saleta de TV com uma das filhas, na cadeira de rodas só para não me cansar muito, mas já bem mais forte; fiz a mesma pergunta e ela confirmou, mas me deixou confuso com sua resposta titubeante.

No dia seguinte ou dois dias depois descobri, de repente, que meu “computador” não existira.

Grande, muito grande frustração.

Finalmente, a alta!

Thais foi me buscar. Saí em cadeira de rodas; pedi a ela que me levasse até o fumódromo.

Longa tragada. Ah! Que delícia!

Satisfeito, Thais me levou para o apartamento da Delza, que já tinha combinado isto com Julieta e Thelma: nenhuma teria condições de tratar (nem eu de me tratar) durante a convalescência.

Delza, carinhosa, experiente por seu tempo de assistente de médica amiga, se desdobrou em tratamento e cuidados. Na ampla varanda eu tomava sol; Delza não pode, — nem deve -, sentir cheiro de fumaça de cigarros; até para eu fumar, ela deu um jeito: com vidros de dentro fechados e abertos os de fora, cinzeiro na bandeja de James, estatueta de mordomo que eu lhe dera no passado. Mais tarde, já quase bom, eu descia e ia fumar no jardim.

Alimentação adequada e primorosa (até avocado com sal, azeite e limão ela fez), durante a melhora, eu andava encurvado sem esticar a barriga, reduzindo a dor. Seu massagista (profissional excelente), na primeira vez que me viu, me disse “Endireite as costas, dói só um pouco, por poucos dias, mas você, assim, vai ficar corcunda!”. Belíssima ajuda! No dia seguinte eu já estava procurando andar normalmente, no segundo ou terceiro andava como sempre.

Foi ali, no terraço, em noite enluarada, que escrevi “Sonhando acordado[1]

Curado, restabelecido,

Voltei à vida normal.

[1] https://drive.google.com/file/d/1ru_hDmCjsp9jBtFk7tKEUqpPsdGoorKR/view?usp=sharing

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Flavio Musa de Freitas Guimarães

Already watching the eighty-seventh turn of the Earth in curtsy around its King, I’m an engineer that became a writer, happy, in perfect health, body and mind.