Meu “pernilongo”

Flavio Musa de Freitas Guimarães
3 min readSep 19, 2022

Minha esposa acabara de sair, bateu a fome, fui almoçar.

Levei meu prato, sobre o sousplat, já contendo grãos de milho e feijão, legumes diversos, tudo cortado em pedacinhos, já aquecidos no microondas, à panela de arroz feito há pouco, ainda na trempe do fogão; sousplat com o prato sobre a bancada ao lado, tirei a tampa, que coloquei na também na bancada. Que beleza! Solto e levemente húmido, perfeito.

Ao levantar a panela, três grãos de arroz já estorricados sobre a bandeja abaixo da trempe (!). Sei que minha esposa faz a comida com amor, técnica e cuidado; como foram parar ali?

Com a mão esquerda, virei levemente a panela sobre o meio do prato, com o garfo fui raspando os grãozinhos que caíram sobre o feijão em quantidade e forma adequadas, adicionei três pedaços de carne cozida na panela de pressão, derramei duas colheres de sopa do suculento caldo por cima. Pus o prato sobre a mesa que, já preparada de antemão, uma peça de jogo americano sobre a toalha, por precaução, tudo direitinho, como ela sempre faz: copo de água à direita, taça de vinho tinto à esquerda, garfo e faca sobre o guardanapo — eu estava sozinho, mas a refeição é melhor apreciada se com requinte — garfo à esquerda, faca à direita lâmina voltada para dentro.

Liguei a TV no canal da Disney; desenhos animados de antigamente são ótimos; os noticiários, que algumas vezes vi de passagem, são indigestos.

Terminado o repasto, retirei o sousplat com o jogo americano, sousplat e prato em cima, levei-os á pia; voltei, peguei e sacudi a toalha na cuba da pia. Nada tinha; portanto, a levei-a seu lugar.

Comecei a limpeza passando uma toalha de papel no prato, jogando tudo no lixito; satisfeito com a limpeza do prato, água nele e um pouco de detergente, fiz bastante espuma que, com a esponja, passei nele, pela frente e por trás, o pus de lado, usei a espuma para lavar talheres e copos, fiz o mesmo com o jogo americano e sousplat, abri a torneira, lavei tudo, cada coisa em seu lugar na armação de secar.

Eis que vejo três grão de arroz grudados nas laterais da cuba! Catei um a um, joguei no lixito.

Quando estou só, tenho prazer em limpar tudo direitinho, como minha esposa faz, ou a limpezeira, que vem duas vezes por semana: hoje não era dia de ela vir.

Jogo água nas laterais da pia e depois seco com o rodinho, jogando a água para dentro da cuba, depois passando um pano. Nem cheguei a começar a passar o pano: havia mas dois grãos de arroz, um no fundo, outro na lateral direita da cuba! Catei-os e, para o lixito. Safados!

Feliz, e pronto para voltar a trabalhar no computador, senti alguma coisa debaixo do sapato: outro grão! Ao tirar o grão maldito, vi mais dois (!) grudadinhos entre o sopé da pia e o chão!! Fdps!

Sentei-me á mesa do computador, comecei a teclar, caiu outro de manga da camisa, fui catar o fdpzinho, vi outro na camisa, sobre minha barriga.

Já de saco cheio, desisti de escrever; busquei o poema de Carlos Dumont de Andrade e tentei adaptá-lo ao arroz:

“Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo filho da…”.

Não deu! O meu filho da …. não tem sangue, é desnaturado! E não é um, são muitos.

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Flavio Musa de Freitas Guimarães

Already watching the eighty-eight turn of the Earth in curtsy around its King, I’m an engineer that became a writer, happy, in perfect health, body and mind.