Desanimo

Não foi de repente; já vinha acontecendo aos poucos há tempo.

Onde acordava havia sempre luz, depois penumbra, mas ele encontrava a porta, depois, nem porta, mas uma janela que ele conseguia pular, ir ao muro, escavar as junções de pedras, junções e pedras que conhecia, reconhecia mesmo assim estranhamente sem o nexo que sabia existir.

Hoje acordou em escuro de breu, tateou pelas quatro paredes, eram cinco agora!

Desesperado batia com a cabeça em cada uma; som sólido, parede intransponível.

Mais uma tentativa, escorregou, bateu numa quina, abriu-se a fenda, entrou numa casa que era a sua, nua, sem nada; nem traços, marcas do que fora, só as porta e as janelas.

Abriu uma, quase ficou cego com tanta luz que iluminou a sala, cegou sua razão, caiu de costas, desacordou.

Ao saber que iria acordar, não abriu os olhos; temia o escuro de novo.

Teve fome; então soube que estava vivo.

Abriu devagar os olhos em pequenas fímbrias, tudo iluminado com a luz cegante.

Protegeu os olhos com as mãos, enxergou aberturas e portas, abriu a primeira: era o lavabo! A felicidade de poder urinar lembrou-lhe situações de sua vida anterior; também o confirmou estar vivo. A torneira da pia funcionou: bebeu a muita água que a sede do corpo e mente pediam.

Nenhuma porta ou abertura o levava para onde houvesse comida.

Abriu uma porta que era a entrada, talvez uma saída.

Era uma grande área retangular, cercada por paliçadas em todos os cinco lados, tambores e gritos ao longe. Estava protegido da guerra, de que lhe parecia ter desertado. De que lado? De que lado esteve?

Atordoado viu o rancho sob cobertura de sapé, cambaleou até lá, uma grande tigela de feijoada, travessa de arroz, copo de corpo redondo de cerveja gelada e um copinho de cachaça o esperavam.

Uma concha de feijão com pé de porco sobre o arroz, engoliu uma colherada, ficou empanturrado, não conseguia comer mais nada.

Desanimado, tomou a cachaça de um gole, tomou largo gole da cerveja, que se enchiam continuamente, continuou outras vezes, ouviu uma cantoria, pensou ver uma catedral de cinco lados no cruzamento dos cinco raios da paliçada, ela veio até ele.

Dentro, ele sem religião ou crença que não fosse a do Duvidismo (crença em que todos os participantes duvidam de tudo, inclusive de suas próprias certezas) assistiu uma prece que exaltava um Deus

https://youtu.be/Fvpy-XfmMJ0?t=7

Dali explodiu, voltou à sua dimensão, casa, quarto,

Desanimado.

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Already watching the eighty-seventh turn of the Earth in curtsy around its King, I’m an engineer that became a writer, happy, in perfect health, body and mind.

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