A última cartada

Asséde Paiva, VR, 20/6/2022

Photo by Michał Parzuchowski on Unsplash

— É melhor você ir embora desta casa… Zacarias.

A mulher dele, Linda, jogou sua maleta para fora da porta da sala.

— Vai vagabundo! Vai cheirar o bagulho longe de mim. Você acabou com minha herança e com minha paciência!

Zac estava estupefato, não esperava ser expulso tão drasticamente.

Cabisbaixo, saiu de mansinho como um vira-lata abandonado e puxou a porta da sala. Estava na rua só e desamparado. Caminhou devagar em direção à estação da estrada de ferro sem saber bem o que fazer. Ele sabia que merecia ser expulso; primeiro, não pagava as despesas de casa havia meses; frequentava companheiros pouco recomendáveis, até cochichavam que ele era homossexual. Que pena! Para se livrar dessa pecha, casara-se com Lindinalva.

— Linda, estou doente, se eu for para rua, vou bater o trinta e um[1].

— Gente ruim não morre, siga em frente que atrás vem gente.

Na estação ferroviária ele tinha um conhecido agiota ao qual empenhou sua aliança por Cr$1.000,00 (mil cruzeiros). Com dinheiro foi procurar a pensão de dona Mariana, perto do museu. Chegou e negociou mensalidade e abarrancou enquanto elucubrava outro destino. A pensão era quase uma pocilga, literalmente falando, dona Mariana criava porcos, nos fundos: dois porcos os quais eram alimentados com sobras de comida que pensionistas deixavam nos pratos. Ela raramente comprava farelinho de trigo para os porcos. Zac viveu lá por alguns meses, até que o dinheiro acabou. Estava sendo cobrado pela dívida, mas não tinha como saldar a conta. Ele era jogador viciado em 21(vinte um), e a jogatina se dava noite e dia em casa grande, próxima à pensão. Aliás, pensão sem nome, estava mais para pardieiro, cortiço, pois a casa era toda de madeira, rejuntada com ripas e cheirando a mofo. Era plena dos três pês: pulgas, percevejos e pernilongos, mais bicho-de-pé. Às vezes, ele passava a noite lutando contra esses insetos.

“Estou desolado, liso, zerado, sem um tostão. Que posso fazer?”

Estava num beco sem saída e desesperado.

Veio dona Mariana cobrando, azucrinando: — Trate de me pagar ou vai pro olho da rua, seu!…

— Mulher, me dê um dinheiro pra comprar um maço de cigarros… depois eu pago, implorou.

— Ainda tem o desplante de pedir-me dinheiro?! Não minta, você quer grana pra jogar ou comprar droga.

— Juro que não. Preciso pagar ao agiota…

— Cansei de ouvir isso… pilantra.

— Então vou procurar outro jeito de obter dinheiro, por bem ou por mal. Se algo acontecer-me, a culpa será sua…

— Procure trabalho e me pague, eis seu problema.

Zac estava ajeitando o coldre do trezoitão nos quadris.

— Empenhe sua arma! Você nem sabe atirar — disse Linda.

— Isso não… não vou vender meu “berro”. Ainda tenho a aliança de meu casamento, com a mulher sem alma.

— Seu casamento já era…

Ele foi para jogatina, um cômodo isolado entre casas de aluguel, perto do ribeirão que recebia a descarga de resíduos de uma fábrica de tecidos. Quando a fábrica liberava seus ácidos, tintas e efluentes oleosos, o riacho ficava avermelhado e fedia demais. Era morto, e naquelas águas nada sobreviveria. Ele desaguava e poluía o rio Paraibuna, em Mariano Procópio, bairro de Juiz de Fora, Minas Gerais, nos idos de 47.

Zac perdeu a aliança na víspora e, “P” da vida saiu a fim de obter algum dinheiro. Não conseguiu empenhar o revólver com o agiota, então chegou perto de um transeunte, abriu o paletó e mostrou-lhe a arma. Claro que o pobre coitado deu todo dinheiro que tinha e deu às vila-Diogo. Zac viu que era fácil e prometeu a si mesmo usar o mesmo método sempre que precisasse de grana.

Com dinheiro na mão, tratou de voltar à casa de jogos, lá jogava-se bisca, truque, marimbo, víspora, roleta paulista e dados, e rolava muito dinheiro, noite inteira. Estava apostando no jogo do 21 (vinte e um). O jogo é fácil: os coringas são descartados; cada jogador recebe três cartas, toda figura vale 10 pontos; o Ás vale um e, as demais cartas, de todos os naipes, valem o que nelas está escrito: 1, 2, 3, ….10. O jogador, primeiro a jogar, é chamado “mão”; e, o último, é chamado “pé”. O “mão” verifica as suas cartas e se não fizer 21; por exemplo, (figura+figura+quatro = 24), pode descartar uma carta e comprar outra no baralho, tentando fazer 21, no exemplo, só fará 21 se comprar um Ás. Deve descartar uma carta, se passar de 21. E, assim por adiante. O primeiro a bater, recolherá o dinheiro. E o jogo continuará até à desistência dos jogadores.

De madrugada, a lua sumia pouco e pouco, o sol descerrava a cortina da noite e infiltrava os raios, em nuvens escoteiras. O salão de jogos, enfumaçado, lembrava neblina em dia de chuva fina. Zac estava em maré de azar e perdera todo o dinheiro que roubara do passante. Pedira socorro ou crédito à banca, mas ninguém quis lhe emprestar qualquer quantia. Assim, propôs vender o revólver; que após avaliado, lhe deram o crédito desejado. Novamente, perdeu. Era um perdedor nato: perdera a mulher, perdera os bens, perdera o dinheiro e devia à pensão.

Antes de entregar o Smith Wesson, deixou duas balas no tambor (intenção ou distração) e falou:

— Vamos à cartada final: roleta russa, se eu perder… se ganhar, vocês me devolverão tudo. Concordam?

Ele tinha o revólver, aquiesceram, mas um disse:

— Você é louco.

Zac persignou-se. Padre, Filho, Espírito Santo.

Com a palma da mão girou o tambor, engatilhou, pôs o cano na têmpora, puxou o gatilho.

Bang!

Maktub[2]

[1] Na linguagem popular: MORRER.

[2] Tinha que acontecer.

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Already watching the eighty-seventh turn of the Earth in curtsy around its King, I’m an engineer that became a writer, happy, in perfect health, body and mind.

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